Crônica Anunciada do Apocalipse

April 29th, 2009

Crônica anunciada do Apocalipse

ou

O penúltimo chute no balde

(um monólogo unilateral)

Furio Lonza

Foi como nas grandes tempestades: todas começam com um pequeno relâmpago. Por isso, quase ninguém prestou atenção. Fazia parte do cotidiano: uma modelo, que havia publicado um livro de poemas algumas semanas antes, estava sendo entrevistada pela maior revista de literatura da época. Corria o ano da graça de 1984. O depoimento (ilustrado com muitas fotos sensuais da autora) pegava umas oito páginas, por baixo. Não seria sincero relembrar que ela tinha sido, durante boa parte de sua carreira, garota de programa, constando com nome, foto e preço em diversos catálogos de algumas agências especializadas nesse tipo de comércio. Seria moralismo barato. Afinal, o livro tinha sido prefaciado por um dos maiores poetas brasileiros, o que tinha dado uma certa credibilidade à coisa. E provavelmente tirado um pouco da própria credibilidade do dito cujo. Mas ele estava no fim da vida. Não tinha muita coisa a perder. Estava se divertindo. Todos entendemos essa parte.

Os poemas eram banais, nada mais do que circunstâncias envoltas numa aura de pseudolirismo caseiro. Mas tudo andou nos conformes: o livro chegou à terceira edição, nada mau para um conjunto despretensioso de versos.

A revista era conceituada no pedaço. Atenta, curiosa, reveladora. Séria. Tinha reputação. Tinha carisma. Atingia tanto intelectuais, quanto acadêmicos e leitores em geral. Mas o jornalista era um ser humano. A beleza da modelo (seu rosto, seus belos olhos verdes, suas coxas, sua bunda) transcendiam – digamos assim – seus interesses literários mais imediatos. E sucumbiu. Provavelmente como Arthur Miller diante dos peitões de Marilyn Monroe.

Foi uma entrevista eclética. Falaram um pouco de tudo: interesse por jóias (a modelo tinha feito recentemente um anúncio de uma empresa tradicional do ramo); hobbies (além de colecionar bonecos de porcelana, ela gostava muito de andar de bicicleta); cinema (Amo o cinema); crianças (Amo as crianças. E a flores).

A certa altura, recobrando em parte a lucidez, ele perguntou o óbvio: quais eram os novos projetos da modelo-escritora-poeta. A resposta foi rápida e certeira: Pretendo escrever um romance, ela disse. Aliás, já comprei um computador.

Eram os primórdios. Naquela época, ainda não o chamávamos de micro. Não tratávamos esse amontoado de chips com a intimidade que hoje lhe é tão brejeira & peculiar. Eram máquinas obscuras, rudes, toscas. Os disquetes eram cartonados negros e maleáveis que armazenavam no máximo uma centena de páginas.

Em sua tumba milenar, Sócrates deve ter ficado constrangido diante do silogismo de causa e efeito: a questão estava clara: Pretendo escrever um romance; logo, comprei um micro. Ou talvez uma citação cartesiana clássica: Tenho um micro; logo, existo.

O lampejo não me passou despercebido, mas não pude no ato avaliar conscientemente toda sua extensão e desdobramentos posteriores. Sabia que era algum tipo de aviso, mas não sabia bem do quê. Afinal, não podia entender como que uma pessoa – mesmo uma modelo – pudesse achar que a simples troca do teclado da velha Olivetti por outro de um computador lhe traria a possibilidade de compor algo parecido com o Guerra & Paz, por exemplo. Achei ingenuidade da parte dela. Hoje, percebo que a ingenuidade era minha.

Na época, ainda brincava. Quando meus amigos gabavam-se de ter comprado um micro com quatro trilhões de megabéis … que podiam armazenar duas centenas de tabelas logorrítmicas em seus milhares de Gigabytes… que a memória RAM era hiperbólica ou logosófica e outras merdas no gênero, eu pegava uma caneta Bic e parodiava a narração de um anúncio. E dizia: Veja, esta caneta possui uma tecnologia de última geração: tem a capacidade de escrever duas mil palavras por minuto; a tinta é lavável; posso trocar a carga a cada trinta dias a um preço irrisório; tem um design moderno & sóbrio, ao mesmo tempo prático & elegante; além disso tudo, ainda é um instrumento palindrônico: consigo escrever tanto da esquerda para a direita quanto de cima para baixo. E vice-versa. E jamais – insisto – jamais eu perdi nada. Nunca coisa alguma sumiu ou foi tragada para o limbo desses escaninhos infernais.

Fazia uma pausa dramática, para continuar em seguida, arrematando o discurso de forma irônica: Mas se vou escrever como Tolstoi, isso depende única e exclusivamente de minha sensibilidade e não da marca, do modelo ou do ano de fabricação da caneta.

Foi como nas grandes inundações: todas começam com uma prosaica torneira pingando num arrabalde qualquer da periferia. O que a modelo em questão queria dizer com aquela frase (mas ela ainda não sabia disso) era que, num futuro não tão distante, a tecnologia iria substituir a criatividade e a competência. Hoje, mais importante do que o que se faz é como se faz. É com o que se faz. Famílias inteiras se cotizam para comprarem TVs de plasma ou de alta definição para continuarem a assistir a merda das telenovelas ou os programas popularescos de baixíssima qualidade.

Hoje, qualquer dj que consiga manipular com destreza uma série de batuques pré-gravados, alternando-os com scratchs nas ranhuras de discos em vinil, é considerado um músico.

Qualquer pangaré que tenha instalados no computador programas tridimensionais ou holográficos ou uma palheta com 50 mil efeitos especiais é considerado artista gráfico.

Qualquer …

Os americanos (como sempre) foram proféticos em relação a isso. Muitos calhamaços de oitocentos páginas publicados ainda na década de 70 receberam um tratamento de obra empresarial. Havia várias equipes de pesquisa envolvidas no projeto, cada qual numa área específica: Antigüidade, geologia, política, biografias, costumes, personagens históricos, curiosidades e assim por diante. A editora se encarregava de estabelecer o plano geral do livro, coordenava as várias linhas que poderiam ser desenvolvidas e supria o autor com essas informações e materiais técnicos para que ele diagramasse as sequências e, eventualmente, escrevesse os diálogos, embora houvesse outra equipe especializada nisso também. O escritor penteava o texto, dava um cunho pessoal e assinava a obra.

Imagino que, na próxima década, os romances serão escritos pelo computador. Os autores só deverão comprar um programa específico com mil recursos e manipular os comandos com a destreza que a velocidade moderna exige. Abrirá arquivos onde colocará a característica de cada personagem, a temática, o tipo de desenvolvimento da trama, descreverá a paisagem e os limites geográficos onde se passa o enredo, escreverá alguns diálogos e cruzará tudo isso. Com o tempo, não haverá mais escritores. Haverá técnicos especializados neste tipo de tarefa. Serão burocratas cibernéticos que receberão uma pauta previamente determinada pelo departamento de marketing. Os romances não serão mais assinados, trarão apenas o logotipo da editora.

Restará uma seleta minoria (de escritores & leitores) que se fechará em catacumbas (iluminadas por tochas de querosene) e que trocará informações nebulosas e pouco fidedignas sobre parcos lançamentos do outro lado da Terra. Se tornarão nostálgicos, ensimesmados e tristonhos. Falarão sobre os bons tempos em que havia livrarias, editoras e livros em papel. Recitarão de cabeça trechos inteiros de clássicos da literatura. O mimeógrafo ressuscitará. Nesses nichos mal iluminados, esses elementos se tornarão nocivos à sociedade, pois pregarão virtudes humanistas que pouco ou nada terão a ver com o mercantilismo imposto a seus cidadãos. Com o tempo, serão caçados impiedosamente e punidos com o ostracismo. A margem, como sempre ocorreu na História, continuará sendo a única alternativa de sobrevivência do espírito.

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