Curriculum Mortis

Furio Lonza

“Ainda vou me tornar um mestre de um
novo gênero literário: o silêncio”.

Isaac Bábel

Quando desligaram os aparelhos, a família vacilou mas acabou doando os órgãos todos para transplante. As córneas de Leonardo foram parar num rapaz cego de outra cidade, que conseguiu enfim ver a vida como ela é; o coração palpitou no peito de um senhor desenganado de 50 anos; a mão direita rumou para o toco maneta de um executivo sem escrúpulos, o fígado substituiu a falência de irrigação de um menino melancólico que reviveu instantes de esperança e o rim passou a filtrar as toxinas que infernizavam as entranhas de uma mulher em estado terminal.

Hospitais & médicos comemoraram, as famílias nem é preciso dizer, exultaram, borbulharam copos de prazer; a obstinação da química tinha enfim derrotado a Ira Divina.

Ah, sim, a perna esquerda apareceu no corpo de um rapaz sinistro recém-triturado no mar pela hélice de um motor de popa. O corpo de Leonardo repartiu-se em muitas vidas, mas houve rejeições, como é natural nesses casos, são as regras inexplicáveis de um mundo falível, nada que uma juventude primária e farta não pudesse resolver com um mínimo de adestramento.

A história não é banal, se me permitem. O pai vivia repetindo para os amigos que seu filho não tinha ambição. Mas ele estava enganado: a única ambição de Leonardo era ser ninguém, era ser nada. Contudo, ele sabia que não ser nada era difícil, sempre tem alguém que insiste em distribuir méritos, um ou outro atributo positivo, sei lá, todo mundo tem algo que valha a pena na puta da vida.

Leonardo tinha uma teoria: o homem atrapalha pelos simples fato de existir. Ele não queria interagir, não queria interferir, achava a ação humana nefasta por definição. A única saída: anular-se, minimizar ao máximo sua presença na Terra, deixar que a roda do mundo completasse sua rota livremente. Tornar-se invisível, eis toda a lírica possível. O silêncio, a não ação, o doce entranhamento, a ternura estava justamente no vazio.

Nem protagonista, nem antagonista, Leonardo pretendia o aniquilamento como forma total & sublime de encontrar o absoluto. Para ele, a reação era uma maneira conservadora de preservar os mecanismos mais arcaicos do mundo.

Pré-socrático por natureza, Leonardo odiava adjetivos. Sua filosofia consistia em cristalizar os objetos no tempo & no espaço. Teriam que continuar imutáveis, sem que fossem flexionados ao sabor das intempéries.

Para ele, o adjetivo representava a ação mais torpe e autoritária do homem com o objetivo de desvirtuar o sentido da vida. Controvertido, impetuoso, diáfano, avassalador, poético, ambíguo, grandiloqüente, viril, premonitório, sonhador, ambicioso, erótico, mágico. Para Leonardo, nada disso tinha valor ou importância. Sua cosmogonia era simples: a existência não admite intervenções de nenhuma ordem.

Com o tempo, porém, ele começou a abolir também os substantivos. O ser já não mais estava, desincorporara-se de vez, tinha virado nuvem, pó, vento, poeira, éter, fragmento de uma estrela antiga e morta que, por definição, já não brilha mais, pois Leonardo tinha matado inclusive os verbos.

Não teve saída. Com isso em mente, resolveu agir por conta própria: pisou fundo no acelerador e seu fusqueta precipitou-se despenhadeiro abaixo: só teve a escuridão do coma pela eternidade de um mísero instante.

E foi nesse fragmento de trevas que ele vislumbrou toda a vida que não teria, todos os poemas que não faria, todas as mulheres que não amaria.

Aliás, o estado vegetativo, como se diz, é apenas uma provocação às plantas. Os homens são muito estúpidos, se acham superiores em tudo. Quando subiram na escala alimentar, mastigando a carniça que o tigre com dentes de sabre deixava nas pradarias, ele não imaginava a roubada em que estava se metendo: o cérebro começou a pensar e virou um predador.

Vamos colocar as coisas da seguinte maneira: nada pode explicar um ato desses, a morte é uma coisa visguenta, pegajosa, indigna, absolutamente impossível, ela humilha, encolhe, ela ilumina a estupefação, estremece, distribui códigos de tortura, o assassino de verdade é escorregadio, volátil, um rato, um rato peludo com as patas em disparada entrando no primeiro buraco que aparece pela frente, ele avança dolorosamente até roçar as fronteiras do horror, lança-se na morte por mordedura, a morte mordida do rato; quando não há mais rato, o futuro cadáver se vê acuado pela ausência, torna-se irredutível, torna-se infinito, pleno, cai-lhe a mordaça, então ele grita mas ninguém ouve, o despojo humano — com o perdão da palavra! —, explode em estilhaços, ele se torna igual a si mesmo, a seu silêncio.

O predador de si mesmo respira aliviado pela primeira vez, com a ilusão de ter assassinado o resto da Humanidade.

Não há rancor, não há o mínimo resquício de religiosidade ou satisfação, é uma alameda sem árvores, sem sombra.

Mas deixemos isso de lado, vamos logo às alegorias de praxe: a mão de Leonardo acabou por estrangular a esposa infiel do executivo, o coração partiu-se em três ou quatro pedaços quando a esposa do velho o deixou, o fígado do menino estourou numa cirrose hepática espetacular quando ele cresceu e percebeu a vida como ela é. Já seu rim murmurou seus últimos momentos no corpo da mulher que esperava pela diálise na fila do hospital público. E as córneas, bem, o espírito do homem está em linha direta com sua alma, é difícil prever o que pode acontecer quando um homem vê através de outro homem, são janelas roubadas, são fendas meramente corporais que se corrompem com os anos, a criatura se fecha, há uma ingenuidade salgada & virgem, o langor nostálgico de um monarca destituído, toda a história do Universo se condensa em cristais de visão abissal.

Na verdade, não se tem notícia do destino dessa imensidão leve, vazia por dentro e suave como uma criança, mas sabe-se que não deu em boa coisa não.

A aflição foi enorme.

Tudo estava calmo e, de repente, a escuridão.

Foi como um balão que subiu, subiu e incendiou-se perto das nuvens.

É compreensível, houve até algumas risadas.

Leonardo, enfim, provara sua tese com distinção e brilho.