Um tema para Tarantino

08/31/2007 2:25:00 PM

Furio Lonza

Casal tem um programa líder de audiência na TV, onde simula a vida doméstica: eles preparam receitas juntos no ar, dão dicas de como viver bem o cotidiano, conversam, recebem amigos na sala. Tudo ao vivo. O programa é um fenômeno jamais visto.

Um belo dia, contudo, no meio de uma receita, o homem dá uma resposta atravessada à esposa. Todos estranham, se espantam, não só os telespectadores, como também o pessoal da técnica, câmeras, produtores, patrocinadores. Percebe-se uma ruptura. Aquela harmonia é quebrada. E, de fato, alguns dias mais tarde, o casal se separa na vida real. A equipe do Marketing se reúne às pressas e resolve dividir o projeto em dois programas, sempre na mesma emissora mas em horários diferentes. O casal, cada um em seu programa, começa a dar alfinetadas um no outro. A torcida se acirra. O primeiro boletim de audiência declara o sucesso do novo formato: ambos têm 100%.

Depois de um ano, o casal resolve voltar. Descobrem que ainda se amam e querem morar juntos novamente. Mas a produção é contra, não quer arriscar, impede a união à força e ameaça processar os dois, aplicando-lhes multas abissais pela quebra do contrato. A pressão é total. Apesar do sofrimento e da insegurança, eles tentam uma última cartada: decidem negociar com a direção da emissora um especial de fim de ano em que os dois apareceriam juntos no programa uma última vez. A alta cúpula concorda, com uma condição: para manter as aparências, teriam que continuar se digladiando no ar. Não só eles aceitam, como bolam um tipo de duelo dos mais dramáticos: cada um daria uma receita para ser feita concomitantemente aos telespectadores. A melhor venceria, humilhando o concorrente.

À meia noite, na passagem do ano, todos comeriam os deliciosos pratos, tanto em casa, quanto no estúdio. E assim é feito. Acontece que os desígnios da alma humana são insondáveis, como se sabe. Quando termina o falso duelo e todos supõem que os telespectadores já tenham saboreado do melhor quitute, o casal diz que tem um segredo para revelar:

- Vocês lembram da raspa de mandioca brava que nós dissemos para adicionar ao molho e regar sobre a posta de salmão marinado? Lembram também que sugerimos para adicionar lascas mínimas de acaçá? Pois bem, isso tudo na temperatura de 300 graus do forno, como vocês devem ter feito, seguindo nossas didáticas orientações, liberta uma substância de ácido prússico que, ao se associar com os lipídeos naturais do organismo, torna-se altamente letal. Ou seja: o salmão está envenenado e vocês têm mais uns vinte minutos de vida. Pânico no estúdio e no resto da cidade.

A câmera, bastante trêmula, ainda mostra uma última e idílica imagem: o casal entrelaça os garfos cinicamente, dando generosas porções de comida um na boca do outro, suicidando-se no ar, ao vivo e em cores.


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