pela bola sete

03/9/2008 2:06:00 AM

Furio Lonza

Não mexo com mulher na rua, acho de mau gosto, sou da antiga, malandro na estica, ainda digo mango, gaita, pixulé, tutu, pororó, gaitolina, mas gosto de olhar as pernas do mulherio, posso ficar horas só na butuca. Me aprumo, dou campana, sou professor de picardia, meu molejo ainda é macio. Na minha época, elas gostavam. Tóxico, nunca experimentei, é presepada besta, coisa de otário, te quebra, te deixa encrespado, o castigo vem a galope. É.

Tudo ia nos conformes, até que o mundo foi tomado por esses boquirrotos, vadios das curriolas, trouxas das ruas e invertidos de butique. Mas vou pedalando, que atrás vem gente. Tava na barca tamborilando na amurada de retorno a Niterroá, quando a marafona me abordou, debochada, risinho cínico, falando em boquete e coisa & tal. Te manda, falei, tás na ré. Segui. Era bem apanhada, porém, nos trinques, tudo em cima e tudo em baixo, beirava os dezessete. Fosse eu um ponta firme, um boiquira e tirava aquela mulata da vida, mas era um merduncho, tinha perdido na sinuca da vida. Ela veio e sentou, me chamou de vovô e perguntou se eu era baitola. Puto dentro das calças, amassei alguma coisa no bolso, mas não fiz caso. Ela sassaricou, fez fricotinho. Teria alguma coisa para me ensinar na cama? Provável. Eu até gostava dela. Tinha pegada. Era arisca, dessas que não se vê mais por aí. Com mulher nova, a gente pode nascer de novo, pensei. A barca chega. Ela vem atrás, me puxa a japona, tava com fome, dia ruim, trampo duro e sem fruto. Contei mentalmente os caraminguás que morgavam no bolso com destino certo. Deu pra um filé à parmijana com fritas. Ainda arrematou com uma goiabada com queijo e um refri sem gelo, me disse que estava constipada e vinha cuspindo catarro verde de madrugada.

Na despedida, ainda escorreguei a última nota de 50, que ela escondeu no regaço dos peitinhos. Me beijou no rosto e seguiu. Peguei o ônibus e cheguei em casa fora de hora. Eulália me esperava. Trouxera o remédio? Engrossei a voz, disse não, era um errado, tinha encontrado uns camaradas, tinha entornado tudo em birita, amanhã é outro dia, a gente vê. Ela entendeu e ainda perguntou: Encontrou o Paraná? Como está ele? Gente fina, um homem admirável, ele gosta muito de você. Disse que sim, tinha trombado com ele. Beijei-lhe a testa e ajeitei o lençol, cobrindo os gambitos, pobres lembranças de suas antigas pernocas do Teatro de Revista. Fui para o sofá da sala e pensei na morte recente do Paraná, o maior taco da Lapa. Acidente besta, um fio desencapado, um curto circuito no chatô, o maior vacilo, torrou feito churrasco, não restou nem pra semente.

A vida vive de pregar ursadas. De tempos em tempos, ela substitui as pessoas. Olhei pela janela, a noite capengava. É. Tinha feito correto, mesmo as putas têm mais direito de viver do que nós.


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