O Dia Em Que Hunter Thompson Inventou A Antimatéria
Furio Lonza
Corria o ano da graça de 1985. Eu ainda morava em São Paulo. Respirava-se uma bem dosada mistura de CO2 com ozônio aditivado. Ferréz ainda não tinha nascido, o paulistano já migrava de bar em bar da Vila Madalena e o PCC apenas engatinhava. Dando continuidade a meu já arraigado autodidatismo, escolhendo aleatoriamente os títulos que mais me chamavam a atenção, li Las Vegas na Cabeça. Dois anos depois, fui convidado para integrar a seleta equipe da revista Chiclete com Banana e jamais vou saber se esses dois fatos tiveram alguma ligação. Na medida do possível, tentei esquecer tudo o que aprendera na faculdade de comunicação e botei em prática o que tinha aprendido com Hunter Thompson.Misturei jornalismo com ficção, humor e alucinações de vários graus & calibres. Foi um bom laboratório. A primeira regra a ir pro espaço foi a objetividade. Regra número 2: jornalismo informativo, interpretativo e opinativo se mesclaram num cavernoso caldeirão de frases e ênfases, títulos e entretítulos, a linguagem formal explodiu em dissertações e narrações de caráter coloquial. Erudição e o cotidiano mais rasteiro começaram a fazer parte do mesmo diapasão.
Em alguns tablóides mais alternativos, perdeu-se toda a vergonha e pudor: perceberam que a subjetividade poderia sim fazer parte dos artigos sem que necessariamente aquilo se transformasse num altar do ego. A gíria brotou no intestino das matérias como a erva do diabo. Não tínhamos mais escolha, o rebu estava armado, era uma viagem sem volta, a nova vertente tinha escancarado o bom mocismo informativo de matérias com começo, meio & desfecho. Lide e sublide deram lugar a um ensandecido jorro de palavras que vibravam como os 12 compassos de um blues de Robert Johnson.
Escrevia-se no mesmo ritmo dos shows ao vivo do Grateful Dead ou Jefferson Airplane. Hunter Thompson inventara a antimatéria: o rock e a física nuclear tinham definitivamente vendido a alma para o Diabo numa improvável encruzilhada entre os becos fétidos do Bronx e as quebradas de Madureira, marcando o ritmo e a cadência da leitura.
Depois disso, foi o silêncio. Um silêncio de exatos 19 anos. A frivolidade passou a fazer parte de nosso cotidiano jornalístico. Surgiram revistas de amenidades e a vida glamourosa dos ricos & famosos começou a integrar nossa pauta diária. Matérias investigativas se restringiam a prontuários e dossiês montados por senadores e deputados no intuito de derrubar este ou aquele inimigo político e fritar ministros. Esse silêncio só foi rompido em 2004, com a edição do livro de estréia de Thompson: Hell´s Angels: medo e delírio sobre duas rodas, uma trip fundamental para quem se interessa em saber como tudo começou.
Ao contrário de Lãs Vegas na Cabeça, que é uma peça lisérgica de teatro boulevard, este livro é mais formal. Mas o espírito é o mesmo: derrubar a farsa montada pela mídia conservadora americana em relação aos “motoqueiros fora da lei” que infernizavam a vida de cidades inteiras na década de 60, uma autêntica antimatéria onde Thompson é implacável: Time, Newsweek, New York Times, Life, Los Angeles Times, The Nation, New York Herald Tribune, San Francisco Examiner e Oakland Tribune mentiram, exageraram, criando uma ameaça fictícia que em absoluto tinha algo a ver com a realidade. Em 276 páginas de petardos, ele assegura que aquela orgia de informações erradas e alarmantes tinha um objetivo explícito de vender jornal, sem compromisso algum com a ética ou a moral: nesse contexto, ele derrubou mitos, escancarou a arrogância de promotores públicos, colocou a polícia no seu devido lugar, detonou divagações apocalípticas de jornalistas meia boca e mostrou o outro lado da notícia.
O livro sobre os Hell´s Angels é de 1967, dois anos depois da publicação de A Sangue Frio, de Truman Capote, e um ano antes de Os Exércitos da Noite (Os Degraus do Pentágono), de Norman Mailer. É difícil dizer quando exatamente (como e com quem) surgiu o New Journalism americano, mas com certeza foi com essa trilogia que ele escreveu suas páginas mais admiráveis. Infelizmente, isso não influenciou em nada por aqui, pois Thompson sempre foi um autor esnobado e pouco conhecido no Brasil. Mas nunca é tarde para tirarmos o atraso. Afinal, sua irreverência e os insultos dirigidos à máquina, ao sistema como um todo e aos leitores pragmáticos, hoje, são um clássico do jornalismo moderno e da literatura contemporânea. Sem Hunter Thompson, não haveria Beavis & Butt Head, South Park, o seriado inglês Absolutamente Fabulosas e toda uma série de franco atiradores politicamente incorretos que salpicam a mídia e as artes em geral. Na realidade, muita gente bebeu na sua fonte. A idéia de dessacralizar o intocável mercado de consumo, mexer com a mitologia da classe média, ridicularizar o gosto perverso do público letrado, tocar no tabu das drogas e do alcoolismo, brincar com o non sense da vida sempre fizeram parte da escala de valores invertida do autor. É bem possível que o tipo de humor do grupo inglês Monty Python seguisse outros rumos, que as peças do Mário Bortolotto demorassem um pouco mais para aparecer ou que os poemas de Glauco Mattoso não ousassem tanto em sua escatologia lírica. Atores do porte de Jack Nicholson, Jane Horrocks, Tim Roth, John Cleese e Jennifer Saunders devem a ele a irreverência e o sarcasmo de suas interpretações.
Na verdade, o estilo gonzo (por ele mesmo assim denominado) de escrever teve mais influência sobre a liberdade de encararmos a vida estúpida e autofágica nas grandes cidades do que propriamente na maneira de redigir matérias jornalísticas. Uma pena que isso não tenha se entranhado na cabeça de nossos editores (poderíamos ter tido nossa versão do National Lampoom), uma pena que não tenha gerado frutos abaixo do Equador (poderíamos ter tido nosso Michael Moore, por exemplo. Imaginem o estrago que ele estaria fazendo por aqui), uma pena que nossas minorias étnicas não tenham se indignado o suficiente (poderíamos ter tido nosso Malcolm X, Angela Davis e Martin Luther King), uma pena que nossa civilização tenha descambado justamente naquilo que Hunter Thomson mais odiava.
Depois de Hell´s Angels, foram publicados no Brasil A Grande Caçada aos Tubarões, Screwjack e sua única peça de ficção: Rum – Diário de um Jornalista Bêbado. As cartas estão lançadas. Quem tiver culhão, que enfrente esses textos. Ninguém vai sair ileso, isso eu garanto, é leitura obrigatória para quem ainda não jogou a toalha. Afinal, a luta continua. É bem verdade que, em 2005, Hunter Thompson estourou os miolos enquanto conversava por telefone com sua ex-mulher mas isso já é uma outra história.
Saiu, não exatamente nestes termos,
no Caderno Idéias, do Jornal do Brasil,
e atualizado depois do
suicídio de Thompson, em 2005